"Mas ele já te chamou?"

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Ela sabia que havia algo de errado, sentia que as coisas pareciam ter mudado um pouquinho de uns meses para cá, só não tinha certeza do que era. Ela percebia no tom das suas palavras que algo estava fora do lugar, faltando partes que causavam desencontros constantes, talvez até soubesse que era ela quem estava deslocada. Ela analisava tudo com caráter astrológico e resolveu colocar a culpa nos astros por mais um caso ruindo.

Na verdade achava que devia ter algo muito errado nela, algo que simplesmente não conseguia manter os caras interessados por muito tempo. E aí está um dos maiores problemas. Não era ela, porque ela era incrível. Sabia manter uma conversa interessante sobre elefantes ou representatividade estudantil com a mesma destreza, sustentava seu olhar como uma criança curiosa sempre a perguntar se seu dia foi bom, ela é mestre em reconfortar a alma de qualquer mortal com brigadeiros e o seu jeito descontraído de conversar faz com que você revele seus maiores medos e inseguranças. O problema não era ela, mas os outros.

Ela se interessa pela história alheia, se preocupa, quer saber e conversar e não se importa se para isso ela tenha que dar o primeiro passo, ela não se importa de ligar, mandar mensagem ou puxar conversa na biblioteca. Ela não dá a mínima se foi ela quem teve que chamá-lo pro cinema, pra festa na república ou simplesmente para acompanhá-la na rodoviária. Porque ela aprendeu com relacionamentos passados que se você quer alguma coisa deve ir atrás, sem se importar com as opiniões alheias.

Mas aparentemente as regras mudaram, voltamos a ditadura das revistas adolescentes e aos filmes clichés que adoram nos impor comportamentos. "Se ele não te chama para conversar é melhor cair fora porque ele não está interessado". E ela simplesmente não se conformava apenas com essa explicação. Não parece certo relacionamentos deixarem de existir por causa de uma convenção estúpida criada por alguém bem sem amor.

Não deu certo de novo e talvez não funcione com o próximo cara, porque ela tinha essa mania de sentir tudo por caras que não sentiam nada, mas isso nunca a impediu de seguir em frente e continuar acreditando que um dia daria muito certo. Ela só desejava ser correspondida, afinal quem não quer?

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