Crônico: Liberta-me

02:38


O fascínio por aeroportos. 
Sinceramente não sei quando começou, mas a ideia de estar em um lugar que pode me transportar para onde eu quiser do mundo todo me deixa em êxtase. São tantas histórias começando, sonhos milimetricamente planejados sendo realizados e até fugas para terras tão distantes para que nem o nosso pior pesadelo possa nos encontrar. Há também os que retornam. Com um pesar no peito e a saudade dos que ficaram para trás, somente com as memórias estampadas no riso frouxo ao sair da sala de desembarque.
Inevitavelmente tudo aqui me lembra você e lá vai o meu maior segredo: venho em uma tentativa vã de te encontrar olhando para o painel de embarque procurando o seu mais novo destino, sua próxima aventura. Sem mim. Não espero verdadeiramente te encontrar, afinal qual a forma do seu rosto, a cor do seu cabelo bagunçado, quantas ruguinhas se curvam no seu olhar quando você ri ou o quanto o seu sorriso pode acalmar o ambiente? Não sei e muito provavelmente nunca saberei.
Mas eu sinto estar invadindo um território que lhe pertence, tão marcante é a sua presença aqui. Posso imaginar quantas vezes você andou decidido por esses corredores forrados em granito impaciente com os atrasos aéreos ou qual atendente da cafeteria prontamente te atendeu depois de você dar a ela seu melhor sorriso. Mas não passam de indagações.
Estou vivendo em um mundo cheio de lembranças suas, lembranças que nem sequer partilhamos, mas que me invadem como se tivessem acontecido ontem mesmo ou que esperam por acontecer tamanha é a vontade de que você invada novamente minha vida, pronto para bagunçar toda a ordem e instaurar um regime em que você faça parte de cada ato. Mexa nos meus livros, desaprove minhas escolhas musicais, desajuste meus relógios ou desalinhe meu coração.
Depois de meses me segurando para não te contactar escrevo esta carta na tentativa de te libertar do mim. Irônico, não? Pois bem, finalmente me sinto pronta para partir para outra te deixando apenas como uma lembrança de uma época maravilhosa que eu lembrarei quando estiver bem velinha em uma cadeira de balanço, afinal ninguém esquece seu primeiro amor. Mas estou pronta para encarar o que mais a vida tem de bonito para me mostrar, entrar da sala de embarque e viver minhas próprias aventuras. Sem você.


Lígia Timóteo

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2 comentários

  1. Adorei o texto, achei bem profundo... gosto da sensação de liberdade e odeio me sentir presa a algo/alguém. Por isso vou por aí, sem você ou melhor, sem ele.
    Gostei do seu cantinho, estou seguindo.

    Caroline.
    http://www.pelocloset.com.br/

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    Respostas
    1. Obrigada Carol, eu tenho um pouco de receio ainda de postar os textos, então é importante para mim esses comentários positivos (:
      Eu também gosto de liberdade e eu fiquei tanto tempo presa emocionalmente a um garoto que eu nem mesmo acredito nisso hahahaha eu estou recuperando minha liberdade hahaha.

      Beijos

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